A sabedoria popular desenvolvida na
convivência e na observação da Natureza, possibilitou às populações
tradicionais a possibilidade de sobreviver, enquanto espécie, ao longo
de milênios. Nossos ancestrais que viviam no campo, nas florestas e nas
montanhas não bebiam água que passarinho não bebe, não comiam frutos e
folhas que os animais não tocavam, corriam para seus abrigos quando viam
as manadas em disparada, prenúncio seguro de temporais, ciclones e
tsunamis.
Transmitiam seus conhecimentos às novas
gerações, que os retransmitiam aos seus descendentes mesmo quando estes
já viviam na polis, na urbe. Mas nos últimos 250 anos, mais
especialmente a partir da revolução industrial, quando o modelo de
desenvolvimento adotado já começava a produzir pobreza e exclusão
social, as populações passaram a se concentrar em grandes aglomerados
urbanos, o que tornou a possibilidade de observância dos ciclos e fluxos
da Natureza, cada vez mais rara.
Assim, geração a geração, fomos
esquecendo o que nossos ancestrais sabiam e intuíam e nos lançamos na
consolidação de um inconseqüente paradigma civilizatório em que fizemos
do Oikos, do Lar Terra, apenas uma fonte de recursos naturais.Em nossa
ignorância, imaginamos que estes eram inesgotáveis e que podíamos
impunemente seguir nossa trajetória de destruição.
Conquistando novos territórios a cada vez
que exauríamos o anterior, extraindo dele suas riquezas minerais,
cortando e queimando suas florestas para construir nossas casas e obter a
energia que necessitávamos, produzindo riquezas e descartando os
resíduos em qualquer local, desde que fosse longe de nós.
Voltamos as costas aos rios e demais
cursos d’água, tratando-os como canais que levariam para longe, muito
longe, os desagradáveis restos do que consumíamos. E os anos foram
passando... Enquanto procriávamos íamos a busca de mais horizontes, de
mais riquezas naturais, mais espaço. Inventamos novas tecnologias,
descobrimos a força e o poder da energia fóssil que arrancamos do fundo
da Terra, processamos, industrializamos e passamos a queimar
diuturnamente nos quatro cantos do planeta.
A ciência e a tecnologia nos trouxeram
mais conforto, eliminaram distâncias físicas, nos possibilitaram cruzar
os céus, até para a Lua fomos, e prosseguimos em nossa trajetória de
glória e poder até que um dia, de repente (terá sido de repente?), a
Natureza, esta que há tanto havíamos domado, nos mostra sua face mais
dura, expõe a instabilidade de seus humores.
Ataca e mata impiedosamente, sem aviso prévio, sorrateiramente, coloca-nos armadilhas.
Comemos seus peixes e eles nos envenenam,
bebemos sua água e adoecemos, vamos à praia e somos afogados por ondas
gigantes, seus ventos varrem nossas casas, os rios ora secam, ora
transbordam, transformam nossas cidades em depósitos de lixo, (de onde
vem mesmo tanta sujeira?), o ar que respiramos nos destrói os pulmões,
nos faz arder os olhos.
Lembramo-nos então daqueles que há
décadas vinham nos alertando sobre os perigos à espreita, demo-nos conta
de que desde há muito, milhares, milhões de pessoas estavam à margem
deste glorioso e triunfante processo de conquista do Universo e já
enfrentavam, nas inóspitas regiões em que habitam sérias dificuldades de
sobrevivência.
Mas quem se importaria então com a seca,
com a fome, com as enchentes, com as pragas, as doenças de veiculação
hídrica, com a exclusão, com a tragédia da miséria que assolavam
sistematicamente algumas partes do Planeta?
Elas se passavam longe, muito longe de nós...
Mas agora, quando a ciência que criamos e
que julgávamos capaz de solucionar todo e qualquer problema dos
humanos, começa a nos mostrar que, pela primeira vez na história da
humanidade, está posta em xeque a continuidade da nossa caminhada
enquanto espécie no Planeta Terra, sentimo-nos desamparados, indefesos,
fragilizados.
A perplexidade toma conta de nós, quando,
finalmente, percebemos a íntima relação entre o nosso modelo
civilizatório predatório excludente, a destruição do meio ambiente, o
rompimento do equilíbrio ecológico que a Natureza teceu em milhões de
anos de trabalho cósmico e o caos que ameaça a todos em todos os
recantos do mundo, sem distinção de etnia, de classe social, de gênero,
de nacionalidade, de escolaridade.
O que fazer agora, qual o papel de cada
um de nós, cidadãos do Planeta? Como prosseguir à luz da tragédia
anunciada? Como partir do temor que paralisa para a ação que pode trazer
alternativas de caminhos, de soluções? O Dia Mundial da Água é um
excelente momento para que façamos esta reflexão. Sem razões para
comemorar, dediquemo-nos a pensar como vamos cuidar deste bem
imprescindível para a nossa sobrevivência, vida e de todas as espécies
que conosco compartilham a Terra.
Lembremos-nos que Planeta Terra é azul
quando visto do espaço, mas não tenhamos ilusões, uma vez que 97% dos
2/3 de sua superfície composta de água é salgada! Dos 3% restantes, a
maior parte está nos icebergs em forma de gelo. Assim a água acessível
ao consumo humano, que é encontrada em rios, lagos e alguns
reservatórios subterrâneos, somam apenas 0,3%, ou 100 mil km³.
Ao mesmo tempo em que aumentamos o
consumo de água em nossas atividades produtivas e em nosso cotidiano,
continuamos, de forma inadmissível, poluindo com lixo, esgoto e
agrotóxicos, os recursos hídricos de que dispomos. Esquecemos, neste
processo perverso, que a quantidade de água na Terra é praticamente
invariável há 500 milhões de anos.
As mudanças que ocorrem são em sua
distribuição, pois a água não permanece imóvel, se recicla por meio do
Ciclo Hidrológico, cujo equilíbrio encontra-se ameaçado pelo aquecimento
global, pelo desmatamento e pela poluição.
Enquanto isto a escassez de água potável
já atinge 20% da população e a ONU afirma que se a população mundial
continuar aumentando 80 milhões de habitantes por ano, entre os anos de
2025 e 2050, 40% da população já estará sem acesso à água potável.
Somente nos últimos 50 anos, aconteceram em todo o mundo cerca de 500
conflitos armados tendo como causa prima à disputa pela água.
Metade do leito dos hospitais é ocupada
por doenças veiculadas pela água. A cada ano as doenças provocadas por
ela causam 03 milhões de mortos no mundo, crianças na maioria, e
provocam mais de 1 bilhão de enfermidades. No Brasil, que detém 12% da
água doce do mundo, 80% das doenças são causadas ou disseminadas pela
falta de saneamento e 40% das torneiras dos nossos lares derramam água
com qualidade não confiável.
São Paulo, a megalópole emblemática,
resume em seus números toda fragilidade de um modelo de distribuição
territorial que se esqueceu de levar em conta a geografia da Natureza.
Aqui vivem 22% da população do Brasil e aqui só estão 1,6% da água de
nosso país, consumimos 210 milhões de litros de água por hora (116
piscinas olímpicas) que vamos buscar a mais de 80 km de distância da
capital.
No dia de hoje, deveríamos parar tudo
para debater em fóruns, na praça pública, nos palácios, este que é, ao
lado das mudanças climáticas, o maior desafio do século XXI, o acesso à
água de boa qualidade, o gerenciamento adequado dos recursos hídricos de
que ainda dispomos.
A partir da reflexão, do debate, (e do
medo), quem sabe tomamos juízo e passamos a agir como cidadãos
conscientes, adequando nossas atividades cotidianas a padrões de
sustentabilidade, participando ativamente da organização de nossa
comunidade, articulando-nos nacionalmente para influenciar políticas
públicas sérias e ecologicamente corretas, fiscalizando, reivindicando,
sentindo-nos parte da imensa e maravilhosa comunidade biótica.
*Miriam Duailibi é presidente do Ecoar,
uma das principais ativistas ambientais brasileiras da atualidade.
Autora de diversos livros, artigos e textos sobre o tema é reconhecida
internacionalmente por seus inovadores projetos socioambientais. Fundou
em 92 a Ecoar, organização sem fins lucrativos da qual faz parte o
Instituto Ecoar para Cidadania, o Centro Ecoar de Educação para
Sociedades Sustentáveis e o a Associação Ecoar Florestal, responsável
pela produção anual de 2 milhões de mudas para a reposição de florestas
no Brasil.
AUTORIA: Miriam Duailibi
Sobre o Instituto Ecoar para a Cidadania:
O Instituto Ecoar é uma organização da
sociedade civil de interesse público (OSCIP), sem fins lucrativos, que
atua com educação ambiental, cidadania e projetos florestais. Sua missão
é contribuir para a construção de sociedades sustentáveis e em
equilíbrio com a natureza.
Fundada por um grupo de ambientalistas e
pesquisadores após a Eco-92 e o Fórum Global, é responsável pela
implantação de mais de 50 projetos de meio ambiente e educação em todo
país. Credenciada pelo IBAMA e DPRN para desenvolver o Programa de
Reposição Florestal Obrigatória no Estado de São Paulo, possui dois
viveiros que juntos produzem mais de 02 milhões de mudas por ano.
Por.: Miriam Duailibi
Matéria publicada em Hospital Espiritual do Mundo